21
mar
10

Escambo Cultural

Quando cheguei em Marrakech decidi sair do albergue e procurar um lugar mais barato pra ficar. Optei por uma riad que ficava a uns 300 metros do mercado principal, seguindo pelos becos e ruelas argilosos. A maior razão pra eu ficar lá, alem do preço baixo, começa com o dono da riad, Ali, me convidando pra sentar e dizendo pra mulher – faz um chá pra gente, que nós vamos conversar…

Discutir negócios durante o chá foi minha primeira sensação de estar enfim em Marrocos, longe da horda turística. Por trás da bandeja do chá, minha segunda e principal razão de me hospedar: Ibtissan, cabelos velados, nem uma palavra em inglês, sorriso honesto e olhos limpos. Sempre tive uma grande curiosidade em saber como se comportam as mulheres muçulmanas, num mundo tão íntimo, tão delas, por baixo de todas as regras feitas por homens que elas têm que obedecer.

Ibtissan significa sorriso em árabe. Criada em um vilarejo perto de Rabat, ela se deslumbrava com tudo que conhecia após alguns meses vivendo em Marrakech. Apesar da religião rigorosa, nunca a vi reprimir sua curiosidade ou o jeito espontâneo. Mesmo não falando a mesma língua, tentei me comunicar com ela o máximo possível. Aos poucos ela começava a arranhar um inglês inicial. Um dia me perguntou por quanto eu venderia minhas havaianas. Contrariando toda a regra árabe eu resolvi que não ia negociar nada, e dar minhas havaianas de presente. Ela me olhou muito, muito incrédula e agradeceu inúmeras vezes. Quando anoiteceu e todos os homens já dormiam, ela me chamou sussurrando pro quarto dela, e me deu uma laranja pra comermos juntas. Mais barata que água, a laranja era o jeito mais esperto de se refrescar nas noites quentes no centro de Marrakech. Ela me ensinou o melhor jeito de descascar e comer e me disse: “a partir de agora, vc vai ser como a minha irmã menor.” E passou a me ensinar tudo o que ela achava que valia a pena ser aprendido. Esse era o único momento em que ela mostrava os cabelos enormes, pretos e lisos. E no nosso dialeto meio inglês, francês, português, árabe, e principalmente de olhares, caras e bocas, ela foi me contando sobre a vida dela,e a gente ia se entendo precariamente, o suficiente pra perceber que mulheres sempre terão seus pontos em comum, não importa o véu que as cubra….

No dia seguinte ela me deu uma bolsinha de couro feita por ela que eu guardo até hoje, e nossos encontros continuaram nas noites que se seguiam. Sempre rindo e sussurrando, conferindo se o marido ainda dormia de vez em quando, os assuntos iam das amigas e família ao amor. Fazíamos sessões de fotos, e a sensualidade que eu julgava tão oprimida aflorava e saltava em cada raiz do cabelo, cada olhar e pose de retrato. Ela sempre esteve ali.

Eu não vou contar aqui os segredos que ouvi, muito menos publicar as fotos das nossas seções noturnas. Mas aqui vai uma imagem pra quem ficou curioso…

Uma amiga minha quando viu essa foto disse algo do tipo “ih olha, a bruneide marroquina! hahahha”. achei uma brincadeira muito intuitiva…mais que cultural, nossas personalidades se diferiam muitíssimo, mas quando estávamos as duas abertas pra esse escambo tão sincero, virávamos simplesmente mulheres, unidas, tão iguais, encontrando suas semelhanças em universos tão diferentes. Nós éramos pessoas tão distintas e mesmo assim nos identificávamos tanto quando nos permitíamos uma jornada aberta.

Ibtissan me ensinou que as mulheres sempre vão ter uma essência primitiva inoprimível em comum, independente da raça, religião, personalidade, ou o que quer que seja. Homens adoram dizer que somos complicadas, mas temos todas um universo interior riquíssimo, que é bem mais entendível se simplesmente admirado de braços abertos, sem julgamentos, amarras ou cortes.


22
fev
10

eeeee festaa!!!!

Meus presentes de aniversário:

-uma arma d’água

-um chaveiro de pato de pelúcia

-um bolo que cresce na água

-adesivos de borboletas

-um coador de café

Alguém aqui fez 24 anos…???

aiaiai…. mas agora sério e piegamente, mtmtmtmt obrigada a todos q fizeram parte da minha vida de uma forma ou outra, crianças e velhos, presentes e ausentes, e também aqueles que me deram presentes super sérios que não constam na lista.

E  já que dia 18 passou, comemoremos todos o nosso desaniversário com uma xícara de chá!




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